MyLai: uma análise da maldade em grupo III

Setembro 6, 2007 at 1:07 pm | In História, comportamentos, guerra, psicologia, reflexão, sociedade, sociologia, violência | Leave a Comment

MyLay II O Indivíduo sob pressão

A progressão da responsabilidade colectiva

 

·        Dinâmica de grupo: dependência e narcisismo

Os indivíduos não regridem apenas em alturas de pressão, também o fazem em situações de grupo. Um dos aspectos desta regressão é o fenómeno de dependência do líder. É, de facto, admirável. Reúna qualquer pequeno grupo de estranhos – cerca de uma dúzia –, e quase sempre a primeira coisa que acontece é que um ou dois deles rapidamente assumem o papel de líder do grupo. Não acontece devido a um processo racional de eleição consciente. Acontece naturalmente – espontânea e inconscientemente. Porque é que acontece tão fácil e rapidamente? Uma razão, claro, é que existem indivíduos mais capazes de liderar os outros ou que desejam liderar mais do que os outros. Mas a razão mais básica é outra: é que a maioria das pessoas preferem ser seguidores. Mais do que qualquer outra coisa, é provavelmente uma questão de preguiça. É simplesmente mais fácil seguir e ser um seguidor em vez de um líder. Não se torna necessário agonizar sobre decisões complexas, planear em relação ao futuro, tomar iniciativas, arriscar a impopularidade ou ter muita coragem.

O problema é que o papel de um seguidor é um papel de criança. O indivíduo adulto é mestre do seu próprio navio, director do seu destino. Mas quando assume o papel de seguidor, delega no líder este poder: a sua autoridade sobre si mesmo e a sua maturidade como tomador de decisões. Torna-se psicologicamente dependente do líder, tal como uma criança é dependente dos pais. Desta forma, há uma forte tendência para o indivíduo comum regredir emocionalmente assim que se torna membro de um grupo.

O objectivo do Primeiro Pelotão da Companhia Charlie da Força de Intervenção Barker não era o de criar líderes, mas o de matar vietcongues. Na realidade, para atingirem os seus objectivos, as Forças Armadas desenvolveram e fomentaram um estilo de liderança de grupo que é essencialmente oposto ao de uma terapia de grupo. É uma velha máxima que os soldados não são feitos para pensar. Os líderes não são eleitos a partir de dentro do grupo mas nomeados a partir de cima e transformados em símbolos de autoridade. A disciplina militar por excelência é a obediência. A dependência do soldado em relação ao seu líder não é só encorajada, é obrigatória. [1] Dada a natureza da sua missão, as Forças Armadas fomentam de forma intencional e provavelmente realista a dependência regressiva que ocorre naturalmente nos indivíduos dentro dos seus grupos.

Em situações como a de MyLai, o soldado individual é uma situação praticamente impossível. Por um lado, lembra-se vagamente de ter ouvido numa aula que não precisa de renunciar à sua consciência e deve ter uma independência de julgamento adulta – até um dever – de recusar obedecer a uma ordem ilegal. Por outro lado, a organização militar e a sua dinâmica de grupo fazem todos os possíveis para tornar tão doloroso, difícil e anti-natural quanto possível que o soldado exerça independência de julgamento ou desobedeça. Não é claro que as ordens da Companhia Charlie tenham sido “matar tudo o que se mexa”, ou “dizimar a aldeia”. Mas se foram, será de admirar que as tropas tenham seguido essas ordens dos seus líderes? Esperaríamos, pelo contrário, que se tivessem amotinado em massa?

Se o motim em massa parece um tanto forçado, não poderíamos pelo menos prever um número reduzido de indivíduos que tivesse suficiente coragem para se revoltar contra o seu líder? Não necessariamente. Já fiz referência ao facto de que os padrões de comportamento de grupo são notoriamente semelhantes aos do indivíduo. Isto porque o grupo é um organismo. Tende a funcionar como uma entidade única. Um grupo de indivíduos comporta-se como uma unidade devido ao que é conhecido como coesão de grupo. Existem forças poderosas em jogo dentro de um grupo por forma a manter os seus membros individuais juntos e em linha. Quando estas forças de coesão falham, o grupo começa a desintegrar-se e deixa de ser um grupo.

Provavelmente, a mais poderosa destas forças de coesão é o narcisismo. Na sua forma mais simples e benigna, manifesta-se em orgulho do grupo. Quanto mais orgulhosos os membros do grupo se sentem do grupo, mais este se sente orgulhoso de si mesmo. Mais uma vez, as Forças Armadas fazem deliberadamente mais do que a maioria das outras organizações para fomentar o orgulho dentro dos seus grupos. Fazem-no através de uma série de meios diferentes, tais como desenvolver insígnias de grupo – bandeiras por unidades, divisas nos ombros e até destaques especiais de uniformes, como é o caso dos Boinas Verdes [2] – e incentivar a competição entre grupos, desde os desportos de intramuros à comparação de pontos por unidades.

Uma forma de narcisismo de grupo menos benigna mas praticamente universal é o que se pode chamar “criação do inimigo”, ou ódio pelos “fora-do-grupo”. Podemos observar isto naturalmente nas crianças, à medida que aprendem a formar grupos. [3] Os grupos tornam-se exclusivos. Aqueles que não pertencem ao grupo (ao clube ou ao grupo exclusivo) são desprezados como sendo inferiores, ou maus, ou ambos. Se um grupo não possuir já um inimigo, muito provavelmente há-de criar um muito rapidamente. A Força de Intervenção Barker, é evidente, tinha um inimigo predeterminado: os vietcongues. Mas estes eram na sua maioria naturais do país do povo sul-vietnamita, do qual eram frequentemente impossíveis de distinguir. Inevitavelmente, o inimigo específico generalizou-se a toda a população vietnamita, pelo que o soldado americano comum não odiava apenas os vietcongues, mas sim os Gooks [4] em geral.

É praticamente do conhecimento geral que a melhor forma de cimentar a coesão de grupo é fomentar o ódio do grupo em relação a um inimigo exterior. As deficiências dentro do grupo podem ser facilmente ignoradas em virtude de se centrar a atenção nas deficiências ou ofensas dos fora-do-grupo. Assim, os alemães de Hitler puderam ignorar os problemas domésticos tomando os judeus como bodes expiatórios. E quando as tropas americanas não conseguiam combater eficazmente na Nova Guiné durante a Segunda Guerra Mundial, o Comando incentivava o seu espírito de classe ao mostrar filmes de japoneses a cometerem atrocidades. Mas esta utilização do narcisismo – quer seja deliberada, quer inconsciente – é potencialmente má. Examinámos extensivamente os modos em que os indivíduos maus fogem à auto-análise e à culpa, responsabilizando e tentando destruir o que quer ou quem quer que aponte as suas próprias deficiências. Agora vemos que o mesmo comportamento narcisista maligno ocorre naturalmente nos grupos.

Por tudo isto deve ser óbvio que o grupo que fracassa é o que provavelmente terá um comportamento mais maldoso. O fracasso fere o nosso orgulho e é o animal ferido que se torna perverso. Num organismo saudável, o fracasso é um estímulo para a auto-análise e a crítica. Mas como o indivíduo mau não tolera a autocrítica, é em momentos de fracasso que ele ou ela invariavelmente atacam de uma maneira ou de outra. E o mesmo se passa com os grupos. O fracasso do grupo e o estímulo à sua autocrítica ferem o orgulho e a coesão do grupo. Por isso, em todas as épocas e lugares, os líderes reforçam habitualmente a coesão dos grupos nas alturas de fracasso atiçando o ódio do grupo pelos estrangeiros ou pelo “inimigo”.

Voltando ao assunto específico da nossa análise, recordemos que na época de MyLai a operação da Força de Intervenção Barker tinha sido um fracasso. Depois de mais de um mês no terreno, o inimigo ainda não tinha sido confrontado. Ainda assim, os americanos tinham sofrido baixas de uma forma lenta e regular. A contagem de corpos do inimigo, no entanto, era zero. Ao fracassar a sua missão – que antes do mais consistia em matar – a liderança do grupo estava ainda mais sedenta por sangue. Dadas as circunstâncias, a sede tornara-se indiscriminada e as tropas satisfá-la-iam sem pensar.

 

Continuação: O grupo especializado: a força de intervenção Barker

 

 

 

M.Scott Peck

Gente da Mentira

Cascais, Sinais de Fogo, 2001

Excertos adaptados

 

 


[1] Até os civis cometem actos maus com uma facilidade espantosa, quando sujeitos à obediência. Como David Myers descreveu no seu excelente artigo “A Psychology of Evil” ( The Other Side [Abril 1982], pág. 29): “O melhor exemplo são as experiências de obediência de Stanley Milgram. Confrontados com um comandante imponente e próximo, 75 por cento dos seus sujeitos adultos obedeceram cegamente às instruções. Sob ordens, davam choques eléctricos aparentemente traumatizantes a uma vítima inocente que gritava na sala ao lado. Tratavam-se de pessoas normais – uma mistura de colarinhos brancos, colarinhos azuis e profissionais. Desprezavam esta tarefa. Mas a obediência sobrepunha-se ao próprio sentido moral.”

[2]The Green Berets”, Força Especial do Exército dos Estados Unidos. (N. da E.)

[3] Os psicólogos verificam que, quando grupos semelhantes de rapazes de doze anos, em acampamentos e sem liderança adulta, são encorajados a competir uns com os outros, a competição benigna transforma-se rapidamente numa violenta “guerra à escala dos doze anos” (Myers, “A Psychology of Evil”, pág. 29).

[4] Termo na gíria americana que designa os vietnamitas em geral. (N. da T.)

TrackBack URI

Blog em WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.