MyLai: uma análise da maldade em grupo II
Setembro 6, 2007 at 1:09 pm | In História, comportamentos, guerra, intolerância, psicologia, reflexão, sociedade, violência | Leave a CommentMyLay I
MyLai: uma análise da maldade em grupo
A progressão da responsabilidade colectiva
· O Indivíduo sob Pressão
Quando tinha dezasseis anos tirei os quatro dentes do siso nas férias da Primavera. Durante os cinco dias seguintes o maxilar não só me doía, como inchou e fechou. Não conseguia mastigar sólidos – só líquidos ou comida de bebé insípida. O sabor fétido a sangue estava constantemente na minha boca. No final daqueles cinco dias, o nível do meu funcionamento psíquico tinha sido reduzido ao dos três anos de idade. Tornara-me completamente egocêntrico. Era rabugento e piegas com os outros. Esperava que tivessem constante atenção para comigo. Quando qualquer pequenina coisa não corria precisamente como e quando eu queria, vinham-me as lágrimas aos olhos e o meu desagrado era enorme.
Acredito que quem já sofreu uma dor ou mal-estar crónicos significativos – por exemplo, durante uma semana – reconhece a experiência que acabo de descrever. Numa situação de mal-estar prolongado, nós, humanos, tendemos natural e quase inevitavelmente a regredir. O nosso crescimento psicológico inverte-se; a nossa maturidade é posta de lado.
Muito rapidamente nos tornamos mais infantis, mais primitivos. O mal-estar é pressão. O que estou a descrever é uma tendência do organismo humano para regredir em resposta à pressão crónica.
A vida de um soldado em zona de combate é repleta de pressão crónica. Embora o Exército tivesse feito o que podia para minimizar a pressão nas tropas no Vietname (facultando sempre que possível entretenimento, períodos recreativos e de descanso e outras formas de relaxamento), o facto é que as tropas da Força de Intervenção Barker estavam sujeitas a uma situação crónica de pressão. Estavam no lado do mundo oposto a casa. A comida era má, o calor enervante, o alojamento desconfortável. Depois havia o perigo, geralmente menos grave no Vietname do que noutras guerras, mas talvez exercendo mais pressão por ser tão imprevisível. Chegava durante a noite, sob a forma de rajadas de morteiros quando os soldados achavam que estavam em segurança, armadilhas que os soldados faziam disparar quando iam a caminho das latrinas, minas que explodiam as pernas de um homem quando percorria uma bonita ladeira. O facto de a Força de Intervenção Barker não se ter deparado com o inimigo que esperava naquele dia memorável era típico da natureza do combate no Vietname. O inimigo aparecia quando menos se esperava.
Além da regressão, há outro mecanismo com o qual os seres humanos respondem à pressão. Trata-se de um mecanismo de defesa. Robert J. Lifton, que estudou os sobreviventes de Hiroshima e de outros desastres, chamou-lhe “dormência psíquica”. Numa situação em que os nossos sentimentos emocionais são esmagadoramente dolorosos ou desagradáveis, temos a capacidade de nos anestesiarmos. É uma coisa relativamente simples. A visão de um só corpo desmantelado e sangrento horroriza-nos. Mas se virmos corpos desses à nossa volta todos os dias, dia após dia, o horrível torna-se normal e perdemos a sensação de horror. Pura e simplesmente, desligamos. A nossa capacidade para o horror atrofia. Não conseguimos mais ver o sangue, ou cheirar o fedor ou sentir a agonia.
Inconscientemente ficamos anestesiados. Esta capacidade de auto-anestesia emocional tem obviamente as suas vantagens. Sem dúvida, a evolução foi-nos munindo desta característica que aumenta a nossa capacidade de sobrevivência. Permite-nos continuar a funcionar em situações tão drásticas que sucumbiríamos se preservássemos a nossa sensibilidade normal. O problema, no entanto, é que este mecanismo de auto-anestesia não parece ser muito específico. Se por vivermos no meio do lixo a nossa sensibilidade ao que é feio diminui, é provável que nós próprios comecemos a espalhar detritos e lixo à nossa volta. Insensíveis ao nosso próprio sofrimento, tornamo-nos insensíveis ao sofrimento dos outros. Tratados indignadamente, perdemos não só o sentido da nossa própria dignidade como também o sentido da dignidade dos outros. Quando já não nos incomoda ver corpos mutilados, deixa de nos incomodar mutilá-los nós. É de facto difícil fechar selectivamente os olhos a um certo tipo de brutalidade sem os fechar a toda a brutalidade. Como podemos tornar-nos insensíveis à brutalidade senão tornando-nos nós brutos?
Creio que então podemos assumir que, depois de um mês no campo com a Força de Intervenção Barker – um mês de má comida, de pouco sono, de ver camaradas mortos ou aleijados – o soldado comum estaria psicologicamente mais imaturo, primitivo e bruto do que poderia estar numa época e lugar de menos pressão.
E se normalmente regredimos em face da pressão, não poderemos dizer que os seres humanos têm mais tendência a ser maus em tempos de pressão do que em tempos de bem-estar? Eu creio que sim. Perguntamos como é que um grupo de cinquenta ou quinhentos indivíduos – dos quais poderíamos supor que apenas uma pequena minoria fosse má – pode ter cometido uma tamanha maldade como MyLai. Uma das respostas é que, devido à contínua pressão a que estavam sujeitos, os indivíduos da Força de Intervenção Barker eram mais imaturos e portanto piores do que seria de esperar numa situação normal. Em consequência da pressão, a distribuição normal do Bem e do Mal pendeu na direcção do Mal. No entanto, como veremos, este é apenas um dos factores que contribuiu para a maldade em MyLai.
Tendo considerado a relação entre a maldade e a pressão, será adequado referir a relação entre a bondade e a pressão. Aquele que se comporta com dignidade em tempos fáceis – por assim dizer, um amigo nos tempos bons – pode não ser assim tão digno quando as coisas correm mal. A pressão é um teste à bondade. Os verdadeiramente bons são aqueles que em tempos de pressão não abandonam a sua integridade, nem a sua maturidade e sensibilidade. A dignidade pode ser definida como a capacidade de não regredir em face da degradação, de não se tornar cego perante a dor, de tolerar a agonia e permanecer intacto. Tal como disse atrás, “uma medida – e talvez a melhor medida – da grandeza de uma pessoa, é a sua capacidade para o sofrimento”. [1]
Continuação: Dinâmica de grupo: dependência e narcisismo
M.Scott Peck
Gente da Mentira
Cascais, Sinais de Fogo, 2001
Excertos adaptados
[1] The Road Less Traveled (Simon & Schuster, 1978), pág.76 [ O Caminho Menos Percorrido (Sinais de Fogo, 1999), pág. 80].
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