MyLai: uma análise da maldade em grupo IV
Setembro 6, 2007 at 1:10 pm | In História, comportamentos, guerra, psicologia, reflexão, sociedade, sociologia, violência | Leave a CommentMyLai III:Dinâmica de grupo: dependência e narcisismo
MyLai: uma análise da maldade em grupo
A progressão da responsabilidade colectiva
· O grupo especializado: a força de intervenção Barker
Já mencionei o potencial para a maldade que vem da especialização. Falei de como o indivíduo especializado está numa posição de passar a responsabilidade moral a outra roda dentada especializada da máquina, ou à própria máquina. Mesmo quando falei da regressão que ocorre nos indivíduos quando se tornam seguidores num grupo, estava a falar de especialização. O seguidor não é uma pessoa completa. Quem aceita o papel de não pensar nem liderar falseia a sua capacidade de liderar e de pensar. E como pensar e liderar já não é a sua especialidade ou dever, normalmente perde em consciência durante a troca.
Passando da especialização do indivíduo à especialização de grupo, observamos o mesmo tipo de forças perigosas em acção. A Força de Intervenção Barker era um grupo especializado. Não tinha outros objectivos – como jogar futebol ou construir barragens ou mesmo alimentar-se a si próprio. Existia apenas com um objectivo altamente especializado: procurar e destruir os vietcongues na província de Quang Ngai em 1968.
Quang Ngai. No entanto, o que o leitor pode não perceber é a grande componente de selecção e auto-selecção envolvidas na criação desse grupo. Embora nessa altura os cidadãos fossem recrutados para o serviço militar, a Força de Intervenção Barker não era propriamente uma amostra aleatória da população americana. Os membros mais pacifistas da sociedade excluíram-se a si próprios indo para o Canadá ou declarando-se objectores de consciência. Os membros menos pacifistas que desejavam evitar o combate preferiam normalmente alistar-se nas Forças Armadas em vez de serem recrutados. Ao alistarem-se, podiam optar pela Força Aérea ou pela Marinha, ou por outras especialidades não-combatentes do Exército, que provavelmente não os enviariam para o Vietname. A Força de Intervenção Barker era constituída quer por pessoal militar de carreira que optara deliberadamente pelas armas de combate, quer por “rufias” que haviam feito o mesmo (ou que, por qualquer outra razão, não conseguiram escapar ao facilmente evitável posto de soldado de infantaria).
Até ao final de 1968, bastante depois de MyLai, a guerra do Vietname foi travada, do lado americano, quase inteiramente por voluntários. Para muitos soldados de carreira, uma comissão de serviço no Vietname era muito desejada e procurada. Significava medalhas, excitação, mais dinheiro e promoção garantida. Existia um sistema único de voluntariado para jovens alistados. Quem se apresentasse como voluntário para o Vietname podia ter a certeza de três coisas: uma mudança de lugar, uma licença imediata e um bónus. Estes incentivos eram suficientes para garantir um fornecimento adequado de “carne para canhão” voluntária até ao posterior aumento do envolvimento das tropas militares americanas na guerra a seguir a MyLai.
O caso de um indivíduo prototípico pode ilustrar alguns aspectos do relacionamento entre a sociedade americana em 1968, as suas Forças Armadas e o subgrupo militar que combatia no Vietname. Chamemos a este indivíduo prototípico “Larry” e fixemos o seu local de origem em Iowa. Sendo o mais velho de seis irmãos, filhos de um pai agricultor por conta de outrem, alcoólico, e da sua extenuada mulher, Larry era sem dúvida um tormento desde que atingira a puberdade. Desistindo do liceu aos dezasseis anos, em 1965, sustentou-se parcamente com empregos esporádicos que não chegavam para pagar o seguro do seu automóvel, a gasolina e um estilo de vida que incluía muita bebida. Em Novembro de 1966, foi apanhado a tentar roubar uma estação de gasolina local. A comunidade adorou ver-se livre de Larry, mas ao mesmo tempo não queria aumentar a população prisional nem os impostos. Afinal de contas, o dinheiro tinha sido recuperado e não tinha ocorrido nenhum mal maior. E assim o juiz do condado disse a Larry que tinha duas opções: ou se alistava no Exército ou ia para a prisão.
A partir daí foi tudo muito simples. O pequeno gabinete do serviço de recrutamento do Exército funcionava no mesmo prédio que o do juiz. Escusado será dizer que existiam vagas na infantaria. Larry alistou-se para prestar serviço na Alemanha, pois ouvira dizer que as raparigas eram fáceis, e no espaço de uma semana estava a caminho de Fort Leonard Wood, no Missouri, para o treino básico. O treino de infantaria básica e mais tarde avançada (AIT) mantiveram-no tão ocupado que nem teve tempo para arranjar sarilhos. Mas tudo mudou quando chegou à Alemanha. As raparigas eram tão boas como deviam ser e a cerveja era mesmo óptima. Mas os preços eram altos. Pediu dinheiro emprestado e teve dificuldades em pagá-lo. Vendeu algum haxixe para um dealer mais importante, o que ajudou, mas depois o seu fornecedor resolveu mudar-se. As dívidas aumentaram. Larry, agora quase com dezanove anos, podia ver como iam acabar as coisas. Ou os seus credores lhe davam uma sova ou denunciavam-no no negócio do haxixe. Mas tinha uma saída. Alistou-se secretamente no Vietname e em três dias estava num avião de regresso aos Estados Unidos, deixando para trás os seus problemas. Sentiu-se bem. Tinha recebido o seu bónus para estoirar numa licença de dez dias de regresso ao Iowa, revendo os velhos amigos e impressionando as raparigas. Quanto ao futuro depois disso, não estava minimamente preocupado. Ouvira dizer que as mulheres no Nam eram ainda melhores do que as da Alemanha e, além do mais, seria excitante ver a verdadeira acção, para variar. Dar uns tiros nalguns Gooks até podia ser divertido.
Infelizmente, apesar da óbvia contribuição que seria para a nossa compreensão, nunca foi feita uma análise sociológica à Força de Intervenção Barker. Consequentemente, não posso dizer nada de científico. Não quero sugerir que o grupo inteiro fosse constituído de pequenos criminosos como “Larry”. Mas estou convencido de que a Companhia Charlie e a Força de Intervenção Barker não eram representativas do perfil transversal médio do povo americano. Todos os seus elementos chegaram a MyLai em Março de 1968, por razões de história pessoal e auto-selecção, através de um sistema de selecção também estabelecido pelas Forças Armadas americanas e pela sociedade americana como um todo. Não era um grupo de homens formado ao acaso. Era altamente especializado, não só na sua missão mas também na sua composição única.
A composição humana especializada da Força de Intervenção Barker (e de inúmeros outros grupos humanos) levanta três tópicos significativos. Primeiro, há a questão da flexibilidade que se pode esperar de seres humanos especializados. A Companhia Charlie era um grupo especializado de assassinos. Os indivíduos que a compunham tinham, por uma razão ou por outra, assumido o papel de assassinos, e tinham também sido deliberadamente seduzidos pelo sistema para esse papel. Além disso, treinámo-los para esse papel e entregámos-lhes armas para o desempenharem. Será assim tão surpreendente que, dada uma série de outras circunstâncias favoráveis, tenham assassinado indiscriminadamente? Ou que aparentemente não tenham sentido uma enorme culpa em relação àquilo que os levámos a fazer? Será realista encorajar e manipular seres humanos para formarem grupos especializados e simultaneamente esperar que eles, sem qualquer treino significativo, mantenham uma amplitude de visão muito para além da sua especialidade?
Um segundo tópico é o recurso subtil mas peremptório ao bode expiatório. O prototípico Larry era um ladrão e aldrabão insignificante, um tipo desagradável pelo qual não é fácil sentir simpatia. Mas também era um bode expiatório. E quando os membros da sua comunidade o empurraram para o Exército, não estavam a tentar lidar com o problema social e humano que ele personificava, mas simplesmente a livrar-se do problema. Purificaram a sua própria comunidade, despejando o lixo nas Forças Armadas e sacrificando Larry ao Deus da Guerra. E também se serviram das Forças Armadas como bode expiatório. Porque uma das funções subliminares das Forças Armadas é, sem dúvida, servir como depósito de alguns dos mais indesejáveis jovens americanos – uma espécie de reformatório nacional. Mas o facto de este sistema funcionar sem percalços, e nem sempre com maus resultados, não nos devia cegar para a natureza expiatória do seu processo.
O Exército fez de Larry um bode expiatório ainda maior, ao seduzi-lo para o Vietname. Por um lado, isto tem toda a lógica, do ponto de vista social. Porque é que não hão-de ser os indivíduos como Larry, desordeiros e desajustados, os candidatos mais apropriados para servir de carne para canhão? Se alguém tem de ser morto, porque não aqueles de valor social aparentemente baixo? Mas a decisão de matar não foi de Larry. Nem do Tenente Calley. Nem do seu oficial superior, o Capitão Medina. Nem do Tenente-Coronel Barker. Foi uma decisão dos Estados Unidos da América. Por alguma razão, os Estados Unidos decidiram que haveria matança e, ao matarem, estes homens estavam a obedecer à vontade dos Estados Unidos. Podem ter parecido mais sujos e menos dignos do que o americano comum, mas o facto é que nós, americanos, enquanto sociedade, os escolhemos e empregámos deliberadamente para levarem a cabo a nossa matança – o nosso trabalho sujo – por nós. Nesse sentido, foram todos nossos bodes expiatórios.
M.Scott Peck
Gente da Mentira
Cascais, Sinais de Fogo, 2001
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