MyLai: uma análise da maldade em grupo I

Setembro 6, 2007 at 1:34 pm | In História, comportamentos, intolerância, psicologia, reflexão, sociedade, violência | Leave a Comment

 

MyLai: uma análise da maldade em grupo

 

Prefácio à maldade em grupo

Os gatilhos são premidos por indivíduos. As ordens são dadas e cumpridas por indivíduos. Em última análise, cada acto humano é resultado de uma escolha individual. Nenhum dos indivíduos que participou nas atrocidades de MyLai ou no seu encobrimento está isento de culpa. Até o piloto de helicóptero – o único suficientemente bom e corajoso para tentar impedir o massacre – pode ser culpado por não reportar o que vira para além do primeiro escalão de autoridade acima de si.

Há muitos anos que a tendência de comportamento dos grupos humanos me parece semelhante à dos indivíduos – excepto a um nível mais primitivo e imaturo do que se possa pensar. Porque é que isto é assim – porque é o comportamento dos grupos surpreendentemente imaturo – por que motivo, de uma perspectiva psicológica, são estes menos do que a soma das suas partes – já não sei responder. [1] Mas de uma coisa tenho a certeza, no entanto: existe mais do que uma resposta certa. O fenómeno da imaturidade de grupo é – usando o termo psiquiátrico – “multi-determinado”. Quer isto dizer que é o resultado de múltiplas causas. Uma dessas causas é a especialização excessiva.

A especialização é uma das grandes vantagens dos grupos. Existem processos para um grupo funcionar muito mais eficientemente do que os indivíduos. Em virtude de os seus funcionários se terem especializado em directores executivos, gráficos, moldadores, e técnicos da linha de montagem (que, por sua vez, são também especializados), a General Motors consegue produzir um número gigantesco de veículos. O nosso padrão de vida extraordinariamente elevado baseia-se inteiramente na especialização da nossa sociedade. O facto de eu possuir os conhecimentos e o tempo para escrever este livro é consequência directa do facto de ser um especialista dentro da nossa comunidade, totalmente dependente de agricultores, mecânicos, editores e vendedores de livros para o meu bem-estar. Dificilmente posso considerar a especialização como uma coisa má. Por outro lado, estou totalmente convencido de que muito do mal dos nossos tempos se relaciona com a especialização, e de que precisamos desesperadamente de desenvolver uma atitude de precaução desconfiada. Penso que deveríamos tratar a especialização com o mesmo grau de desconfiança e medidas de segurança com que tratamos os reactores nucleares.

A especialização contribui para a imaturidade dos grupos e para o seu potencial para a maldade através de vários mecanismos diferentes. Por agora, limitar-me-ei a tecer considerações sobre apenas um desses mecanismos: a fragmentação da consciência. Se, na época de MyLai, ao percorrer os corredores do Pentágono, parasse para falar com homens responsáveis pela direcção de produção e transporte de bombas de napalm para o Vietname, e os questionasse sobre a moralidade da guerra e consequentemente sobre a moralidade do que estavam a fazer, esta era a resposta que invariavelmente recebia:

— Oh, agradecemos a sua preocupação, agradecemos mesmo, mas acho que veio ter com as pessoas erradas. Não somos nós o departamento que deseja. Isto é apenas o departamento do arsenal. Só fornecemos as armas – não somos nós que determinamos onde e como são usadas. Isso é política. Devia era falar com o pessoal da política, ao fundo do corredor.

E se seguisse esta recomendação e exprimisse as mesmas apreensões no departamento de política, a resposta seria:

— Oh, compreendemos que estão envolvidos assuntos mais complexos, mas acho que estão fora do nosso âmbito. Apenas determinamos como deve ser conduzida a guerra – e não se deve ser conduzida. Compreende, as Forças Armadas são apenas uma secção da divisão executiva. Só fazem o que lhes mandam fazer. Esses assuntos mais complexos são decididos ao nível da Casa Branca, e não aqui. É aí que deve expor as suas apreensões.

E assim por diante.

Sempre que os papéis desempenhados por indivíduos num grupo se tornam especializados, torna-se possível e fácil para o indivíduo descartar a responsabilidade moral para qualquer outra parte do grupo. Desta forma, não só o indivíduo põe de lado a sua consciência, como a consciência do grupo como um todo se torna tão fragmentada e diluída que deixa de existir. Veremos esta fragmentação vez após vez, de uma forma ou de outra, na discussão que se segue. O facto é que é inevitável que qualquer grupo permaneça potencialmente sem consciência e mau até que cada um dos indivíduos se sinta pessoal e directamente responsável pelo comportamento do grupo inteiro – do organismo – do qual faz parte. Ainda estamos longe de chegar a esse ponto.

Tendo presente a imaturidade psicológica dos grupos, vamos examinar alguns aspectos de ambos os crimes de MyLai: as atrocidades em si e o seu encobrimento. Os dois crimes estão deveras interligados. Embora o encobrimento pareça menos atroz do que o massacre, são ambos farinha do mesmo saco. Como foi possível que tantos indivíduos tenham participado numa maldade tão monstruosa sem que nenhum deles tenha sido compelido pela sua consciência a confessar?

O encobrimento foi uma mentira de grupo gigantesca.

Como com qualquer mentira, o motivo principal do encobrimento foi o medo. Os indivíduos que cometeram os crimes – que puxaram o gatilho ou que deram as ordens – tinham razões óbvias para recear relatar o que tinham feito. Seriam julgados em tribunal marcial. Mas, então, o que dizer sobre o número muito maior de indivíduos que apenas presenciaram as atrocidades, mas que nada disseram sobre “aquela coisa tão negra e sangrenta” [2] ? O que tinham eles a recear?

Qualquer pessoa que dedique algum tempo a pensar sobre a natureza da pressão num grupo percebe que, para um elemento da Força de Intervenção Barker, denunciar um crime fora desse grupo exige uma grande coragem. Quem quer que o fizesse seria chamado “delator” ou “bufo”. Não existe pior nome que se possa chamar a alguém do que esse. Os bufos são muitas vezes assassinados. No mínimo, são condenados ao ostracismo. Para um vulgar civil americano, o ostracismo pode não parecer um destino assim tão terrível. “Então, se se for corrido de um grupo, pode-se sempre entrar noutro”, pode ser uma reacção. Mas lembremo-nos de que um membro das Forças Armadas não é livre para simplesmente aderir a outro grupo. Não pode sequer deixar as Forças Armadas até terminar o seu recrutamento. A própria deserção é um crime enorme. E por isso ele está preso às Forças Armadas, e até mesmo ao seu grupo militar em particular, excepto mediante intervenção das autoridades. Para além disto, as Forças Armadas fazem deliberadamente muitas outras coisas para intensificar o poder da pressão de grupo nas suas fileiras. Do ponto de vista da dinâmica de grupo, e em especial da dinâmica de grupos militares, não será estranho que os elementos da Força de Intervenção Barker não tenham denunciado os crimes do grupo. Nem sequer é surpreendente que o homem que finalmente delatou os crimes não pertencesse nem ao grupo da Força de Intervenção nem às Forças Armadas, na altura em que os denunciou.

Suspeito que existe uma outra razão extremamente importante para que os crimes de MyLai tenham ficado por denunciar durante tanto tempo. Não tendo falado com os indivíduos envolvidos, apresento uma mera conjectura. Mas, de facto, falei com muitos, muitos outros soldados que estiveram no Vietname nesses anos, e conheço profundamente as atitudes predominantes nas Forças Armadas naquela época. A minha sincera suspeita, portanto, é que os membros da Força de Intervenção Barker não confessaram os seus crimes por não estarem conscientes de os terem cometido. Claro que sabiam o que tinham feito, mas se tinham ou não a noção do significado e da natureza dos seus actos é outra coisa completamente diferente. Desconfio que muitos deles nem consideram que tenham cometido um crime. Não confessaram porque acharam que não tinham nada para confessar. Indubitavelmente, alguns esconderam a sua culpa. Mas outros, creio eu, não tinham culpas para esconder.

Como pode isto ser assim? Como pode um homem equilibrado assassinar e não saber que o fez?

Continuação: A progressão da responsabilidade colectiva



[1] É uma questão verdadeiramente importante e merecedora de grande pesquisa e aprofundamento. É um tema não só específico da maldade em grupo em geral – como se não fosse suficiente – mas também crucial para a compreensão de todos os fenómenos de grupos humanos, desde as relações internacionais à natureza da família.

[2] Frase da carta de Ron Ridenhour.

M.Scott Peck

Gente da Mentira

Cascais, Sinais de Fogo, 2001

Excertos adaptados

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