A bomba está entre nós VIII

Setembro 6, 2007 at 11:49 am | In História, comportamentos, ganância, guerra, intolerância, reflexão, sociedade, violência | Leave a Comment

A bomba atómica  VII

 Se há uma relação entre a rejeição da piedade ancestral e a eclosão da ciência, em que sentido se desenvolve ela? Da impiedade à ciência ou da ciência à impiedade? Com toda a verosimilhança, alternada ou simultaneamente, nos dois sentidos.

O importante para nós é o facto histórico do surgimento da cultura tecnológica ocidental, cuja influência hegemónica se propaga e impõe a todo o planeta.

Os imperativos industriais e comerciais, os meios de comunicação e transporte, interditam o isolamento do passado. No século XIX os Japoneses foram forçados a abrir as portas ao Ocidente. As últimas tribos da Amazónia extinguem-se em Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss.

Será inevitável a inteligência e a curiosidade conduzirem à eclosão de uma sociedade tecnológica, apoiada no domínio das energias? Esta interrogação, muitas vezes formulada, parece-me inadequada.

Imaginemos um planeta «lambda» onde, como na nossa Terra, uma multidão de culturas diferentes desenvolve em separado as suas relações com a Natureza. Mesmo que a quase totalidade destes grupos mostre apenas um interesse moderado pela ciência e pela tecnologia, basta que esta paixão apareça algures para se impor a todos. A tecnologia é invasora, arrasta a sua própria expansão territorial.

 

 

A natureza do escorpião

Na margem arenosa de um grande rio africano um leão dorme. É de tarde, faz calor. Não corre a menor aragem.

Um escorpião aproxima-se: «Levanta-te. Tenho necessidade da tua ajuda», diz ele, dando uma cotovelada ao leão, «preciso de passar para o outro lado do rio. Aqui não há mais ninguém. Põe-me sobre as tuas costas e leva-me a nado».

Surpresa do leão: «Eu, nadar com um escorpião no dorso? Tu vais-me picar e eu morro…». O escorpião defende habilmente a sua causa: «Não sejas estúpido. Se eu te pico, afogamo-nos os dois. Nada te acontecerá». Obstinado, o leão procura argumentos. Mas a agilidade intelectual do escorpião, aliada à lógica insuperável da sua deprecada, acaba por vencer. «Sobe», diz o leão.

A passo lento, o leão, desconfiado, avança na água tépida. Começa a nadar. A meio do rio, uma dor viva paralisa-o. O duo é levado pela corrente.

«Olha bem o que fizeste», diz o leão, «vamos perecer os dois». «Eu sei», responde o escorpião, «lamento muito, mas ninguém escapa à sua natureza».

Os acontecimentos dos últimos decénios dão a esta fábula toda a pertinência. Estará na natureza do homem fabricar, o mais depressa e o mais eficazmente possível, as armas da sua autodestruição? Se tal é o caso, poderemos nós escapar à nossa natureza?

A aposta cósmica

 

Neste primeiro capítulo esbocei o balanço de uma situação particularmente alarmante: a do futuro do género humano. A acumulação delirante de engenhos termonucleares, a proliferação do armamento atómico, fazem-nos prever o pior.

As armas – a História no-lo ensina – acabam sempre por funcionar. Os pretextos de legítima defesa tornam-se alibis de agressão. Se o passado é a garantia do futuro, quem apostaria no futuro da paz mundial? E, se o tiroteio começa, quem apostará na sobrevivência da espécie humana?

Mas qual o efeito produzido no espaço interestelar por um fogo-de-artifício de bombas atómicas no nosso planeta? Praticamente nenhum… Os habitantes dos sistemas planetários, mesmo os mais vizinhos, serão incapazes de o detectar! Uma peripécia perfeitamente desprezível à escala galáctica e do cosmos. Para que diabo tantas histórias?

E, contudo… Se a vida existe em outros sistemas planetários, à volta de outras estrelas, se neles apareceram civilizações tecnológicas, não correrão elas também o risco, impulsionadas pela «cruel discórdia», de serem confrontadas com o mesmo problema? Quantas populações planetárias chegaram antes de nós à encruzilhada crucial em que nos encontramos neste momento sobre a Terra? Quantas mergulharam no nada por não terem sabido executar a manobra correcta? E quantas souberam passar no exame da coexistência pacífica com o seu próprio poderio?

Um silêncio assustador

Pascal assustava-se com o silêncio dos espaços infinitos. Mas o céu, sabemo-lo hoje, não é para nós um estranho. Lá se elaboram, no centro das estrelas, como nas nebulosas, os núcleos, os átomos e as moléculas, que formarão mais tarde a infra-estrutura da consciência.

Existirá vida fora da Terra, noutros planetas, ao redor de outras estrelas, entre os milhares de milhões de galáxias do nosso universo? Temos excelentes razões para pensar que os escalões da complexidade são vencidos quando as condições físicas o permitem. E que estas condições férteis existem em milhões e milhões de exemplares no cosmos.

Porquê então nunca recebemos mensagens, radiofónicas ou de outro género, provenientes do céu? Há várias respostas. Examinemos, sucessivamente, quatro delas:

1                    Contrariamente à opinião apresentada acima, estamos sós. A vida não se desenvolveu em qualquer outro lugar. É possível, mas, considerando os conhecimentos actuais, esta explicação é difícil de aceitar;

2                    As civilizações extraterrestres comunicam por métodos de transmissão que escapam ainda à nossa tecnologia. Não se pode refutar esta hipótese;

3                    Os nossos mais próximos vizinhos estão demasiado longe para os nossos receptores actuais, por exemplo, se habitam na galáxia de Andrómeda. As próximas gerações de radiotelescópios poderão então reservar-nos algumas surpresas;

4                    Incapazes de gerir a sua agressividade, as civilizações tecnológicas exterminam-se logo que disso se tornam capazes.

Se a boa resposta é a última, o «silêncio dos espaços infinitos» tem um significado assustador muito diferente do que tinha para Pascal.

Hubert Reeves

A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?

Lisboa, Ed. Gradiva, 1991

Excertos adaptados

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