A bomba está entre nós VII

Setembro 6, 2007 ás 11:38 am | Na categoria bomba atómica, comportamentos, ganância, guerra, História, intolerância, sociedade, violência | Publicar um comentário

A bomba está entre nós VII

A proliferação em 1986

Depois dos Estados Unidos, a União Soviética, a França e a Inglaterra, a China e a Índia fabricaram e fizeram explodir engenhos termonucleares. Cinco outros países encontram-se em excelente posição nesta corrida: a Argentina, o Brasil, Israel, o Paquistão e a União Sul-Africana. Embora não possuam ainda um arsenal atómico completo, estas nações deram já grandes passos nesse sentido.

Há alguns anos foi assinado por vários governos um tratado de não proliferação, o qual, por razões diversas, tem sido largamente contestado. Duas nações do clube nuclear, a França e a China, recusaram-se a assiná-lo, no que foram compreensivelmente imitadas pela maior parte dos países desejosos de obter a bomba.

 

 

Os antepassados da bomba

Corremos o risco de esquecer, ao mitificar a bomba, ao ver nela a encarnação de um ser diabólico, que ela tem antepassados notórios. É a última de uma série de armas mortíferas criadas pela imaginação fértil dos homens durante toda a sua história.

Desde a mais alta antiguidade, todas as invenções, todas as energias novas, são sistematicamente usadas para fins guerreiros. Dardos, flechas, fogos, cavalos, juntam-se ao arsenal dos exércitos em conflito. Lucrécio, o nosso «correspondente romano», dá-nos disso um testemunho eloquente: «Aprendeu-se a domar os cavalos, a dirigi-los com um freio e a montá-los. Em seguida, tentou-se combater num carro puxado por dois cavalos, mais tarde, por quatro. Depois vieram os carros armados de foices cortantes, em seguida os Cartagineses domesticaram elefantes e treinaram-nos para a guerra.

Assim, a cruel discórdia inventou armas cada vez mais mortíferas e aumentou em cada dia os horrores da guerra».

Escrito há mais de dois mil anos, este texto é para nós rico de ensinamentos. A última frase podia ter sido escrita ontem mesmo. Apesar do acréscimo prodigioso de conhecimentos, apesar dos progressos tecnológicos, a alma humana mantém-se resolutamente fiel às suas tradições. E esse é que é o problema.

Os elefantes de Aníbal ameaçavam somente as legiões romanas. A pólvora de canhão, a dinamite, aumentam consideravelmente os destroços. Com a energia nuclear, a «cruel discórdia» pode pensar a sério na eliminação da espécie humana.

 

 

Um erro da natureza?

Mal adaptado, porque com excessivas garantias, nefasto ao equilíbrio do planeta, será o ser humano, em definitivo, um erro da Natureza?

Avaliam-se em mais de um milhão as espécies vegetais e animais que vivem actualmente na Terra. O total de espécies aparecidas no decurso da evolução biológica atingirá os dez milhões. No entanto, nove em cada dez desapareceram.

Nenhuma espécie é sagrada . Cada uma surge do jogo da Natureza, do acaso das mutações biológicas. Para durar precisa de arranjar um nicho, estabelecer um comportamento de trocas, receber e dar, inserir-se num ecossistema. Caso contrário, a eliminação é inexorável.

Há sessenta e cinco milhões de anos, os dinossauros, os fetos gigantes, os amonites, desaparecem bruscamente da superfície terrestre. Sobre a causa desta catástrofe não dispomos de certezas. Pode ter sido a chegada súbita e importante de materiais extraterrestres (meteorito gigante ou nuvem interestelar). Segundo toda a probabilidade, estes seres não foram responsáveis pelo seu desaparecimento. A Natureza não lhes pediu a opinião. Mas o ser humano, se chegar a sua vez de desaparecer, não poderá senão culpar-se a si próprio. Nada nos ameaça além do que nós provocamos.

A destruição nuclear da Humanidade poderia arrastar a eliminação de uma fracção importante – mesmo a totalidade – das espécies animais e vegetais. Se o arsenal não é ainda suficiente para causar esta hecatombe, não demorará muito a sê-lo. De novo temos de saudar a eficácia da inteligência humana. Importa aqui reconhecer o papel pouco invejável desempenhado pela nossa cultura ocidental. Se o grau de civilização de um grupo humano se mede pela harmonia das suas relações com o meio ambiente, a nossa quota é a mais baixa. Tomo por testemunho estas palavras desgostosas de um velho índio do meu país: «Os brancos riem-se da terra, do gamo ou do urso. Quando nós, índios, os caçamos, comemos toda a carne; quando procuramos raízes, fazemos pequenos buracos; quando queimamos a erva, por causa dos gafanhotos, não arruinamos tudo. Sacudimos as glandes e as pinhas das árvores. Só utilizamos a madeira morta.

Mas o homem branco revira o solo, abate as árvores, destrói tudo. A árvore diz: «Pára, estou ferida, não me faças mal». Mas ele abate-a e corta-a em pranchas. O espírito da terra odeia-o. Ele arranca as árvores e abala-as até às raízes… Ele estoira os rochedos e deixa-os em detritos sobre o solo. A rocha diz: «Pára; tu fazes-me mal». Mas o homem branco não lhe dá atenção. Como poderia o espírito da terra amar o homem branco? Por toda a parte onde toca deixa uma chaga».

No nosso planeta habita um grande número de culturas diferentes, cada uma das quais desenvolveu as suas próprias estratégias de subsistência, o seu modo de vida adaptado ao enquadramento natural. A pesca dos Esquimós difere da de Benin. A agricultura maciça das pradarias canadianas não se assemelha à jardinagem familiar dos camponeses da Índia. Tal como as técnicas de vida, as relações do homem com a Natureza variam largamente de um lugar para outro. Como os índios da América, como muitos hindus, numerosas sociedades tradicionais têm pela Natureza um respeito profundo, com vislumbres de animismo.

A ciência e a tecnologia do poder nasceram no nosso mundo ocidental, precisamente onde a relação mística com a Natureza foi desde há mais tempo posta em causa. E, sem dúvida, isso não aconteceu por acaso. Reencontramos aqui a imagem de Prometeu arrancando o fogo do céu: o «pecado» que, segundo Oppenheimer, os físicos conheceram em Los Alamos.

Se há uma relação entre …

 

Continuação: A bomba está entre nós VIII

 

 

 

Hubert Reeves

A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?

Lisboa, Ed. Gradiva, 1991

Excertos adaptados

TrackBack URI

Blog em WordPress.com. | Tema: Pool por Borja Fernandez.
Entradas e comentários feeds.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.