A bomba está entre nós VI
Setembro 6, 2007 at 10:13 am | In História, comportamentos, ganância, guerra, intolerância, sociedade, violência | Leave a Comment
Inclinado sobre a banheira do hotel em Londres, em 1935, Leo Szilard é, de certa maneira, o anunciador da deusa bomba. O general Graves e Robert Oppenheimer, enfeitiçados por filtros bem diferentes, mas igualmente eficazes, são os seus grandes sacerdotes.
Quando Groves escuta «o apelo da bomba», todo ele se desunha a construir depósitos de artilharia. Como verdadeiro soldado, só sonha com a glória militar. «O ministro da guerra designou-vos para uma missão da mais alta importância. Se a desempenhardes correctamente, a guerra está ganha».
Nomeado general-de-brigada, Groves passa imediatamente à acção. Organiza o transporte das suas «tropas» – os melhores cientistas da época, entre os quais alguns prémios Nobel – para um canto perdido do Novo México. Quer que eles vistam o uniforme do exército americano, façam a saudação militar e fiquem sujeitos ao segredo mais completo. Para sua grande decepção, as três exigências são-lhe recusadas.
Groves espumará de raiva ao saber que alguns cientistas manifestaram oposição ao lançamento da bomba sobre cidades japonesas. Numa memória intitulada «Tratamento reservado aos investigadores científicos indesejáveis», escreveu que «o projecto Manhattan foi prejudicado logo à partida pela presença de certos homens de ciência de uma discrição aproximativa e de uma lealdade duvidosa».
Ao aproximar-se a vitória na Europa, fará circular uma nota de acordo com a sua devoção à causa: «Aconselha-se a que se encarem desde já programas educativos para o pessoal, os quais sublinharão a importância de manter os trabalhos e a necessidade de acelerar o seu ritmo a seguir ao dia da vitória, tomando o Japão como objectivo final. O pessoal receberá instruções no sentido de evitar perdas de tempo a celebrar a vitória sobre a Alemanha com festejos inconsiderados».
Mas a bomba não tem pátria, está acima das nações, só deve fidelidade a si mesma. O erro de Groves foi pensar e propagar a ideia de que os Russos seriam incapazes de fabricar bombas atómicas. Embriagado pelo triunfo, convencido da superioridade absoluta da América, Groves redigirá um relatório técnico sobre o projecto Manhattan, uma espécie de «fanfarronada US», distribuído em numerosos exemplares e que os engenheiros soviéticos muito apreciaram e exploraram em seu proveito.
Não se lhe perdoou a proeza. O seu zelo intempestivo tornou-o indesejável e foi substituído por homens mais modestos, discretos e competentes. A sua carreira terminou, a bomba vai continuar sem ele.
Oppenheimer é uma personagem de tragédia, o seu fim será muito mais dramático. Consagrando a maior parte da sua carreira ao desenvolvimento do armamento nuclear, será «queimado» logo que manifesta algumas reservas. A propósito, rememoro as palavras de uma canção de Edith Piaf: «A vida dá-vos todas as hipóteses, para as anular em seguida».
Desde a infância que Robert Oppenheimer é um «pequeno génio». Aos 12 anos apresenta uma comunicação à Academia de Ciências de Nova Iorque sobre os seus trabalhos em geologia.
«Nunca encontrei ninguém tão rápido a captar um raciocínio», dirá mais tarde Hans Bethe, que conhecia muito bem a matéria. «Em alguns segundos ele refaz interiormente o trajecto que nós levámos horas a percorrer».
Este espírito subtil, familiarizado com as altas esferas da abstracção, logrou levar a bom termo o projecto eminentemente concreto de dirigir um laboratório com várias centenas de pessoas e de fabricar, num tempo recorde, um engenho atómico. Isto ilustra bem os dons extraordinários com que a Natureza o dotara. Acrescentemos, para maior exactidão, a sua grande cultura literária e artística, bem como os talentos culinários, fortemente apreciados pelos colegas.
Oppenheimer é a pessoa designada para enfrentar o desafio faustiano da conjuntura política: dar à luz a bomba atómica. Ganhará a parada e será elevado ao vértice da glória. Depois da guerra residirá em Washington, onde as potências mundiais dão às suas palavras a maior consideração. Enquanto milita a favor da bomba, a sua vida roça pelo sonho e as honras chovem sobre ele.
O seu destino inflecte-se quando começa a manifestar reticências, objecções de consciência, dúvidas morais. Militares e cientistas não lhe perdoarão o ter penetrado nas suas motivações profundas. Se, para os soldados, a bomba utiliza o filtro da glória militar, é o filtro do poder que é servido aos cientistas, juntamente com o das boas intenções.
Quando Oppenheimer insiste em obter isótopos para aplicação médica, é considerado suspeito de pretender leiloar segredos atómicos. Mas sobretudo será censurada a sua oposição à prioridade concedida à estratégia dos bombardeamentos nucleares maciços. Contra ele será montado um processo odioso; o seu passado será vasculhado. A queda será brutal, com a exclusão da comissão de defesa e a proibição de acesso a todo o material científico correspondente. Nunca mais recuperará. As últimas imagens do filme The Day after Trinity mostram-no abatido, precocemente envelhecido, uma sombra de si mesmo.
Apesar da sua oposição ao prosseguimento da escalada nuclear, Hans Bethe não sofrerá uma sorte tão cruel. Contudo, passa a ser objecto das críticas acerbas por parte dos jovens lobos da corrida aos armamentos. «O senhor estava cheio de entusiasmo no momento em que se fabricava a bomba atómica, apesar da oposição dos seus antecessores, que a julgavam irrealizável. Portanto, agora acabe com esses sermões e deixe-nos aproveitar as nossas possibilidades». Este discurso dá-nos a medida exacta do nível de reflexão ética e de responsabilidade moral dos novos trabalhadores do armamento nuclear. Quem falará mais eloquentemente da potência dos filtros da bomba?
A bomba americana nasceu num transporte eufórico de zelo e entusiasmo. A bomba soviética apareceu no terror, sob a vigilância das metralhadoras.
Não foi sem razão que Truman duvidou da possibilidade deste engenho nuclear russo. Os Alemães tinham devastado o país, que se transformara num imenso campo de ruínas. Para levarem até ao fim o seu projecto, os Estados Unidos tiveram de usar a fundo a sua formidável infra-estrutura industrial e técnica. Comparando a situação económica dos dois países nessa época, é caso para efectivamente perguntar como conseguiu Estaline que o seu projecto triunfasse.
Sabemo-lo hoje. Apesar do estado exangue do território, a bomba, fiel a si própria, ganha aos pontos à reestruturação social. Utiliza-se a mão-de-obra gratuita dos goulags. Em condições por vezes medonhas, centenas de milhares de operários trabalham dia e noite sob a ameaça das espingardas.
As instalações são montadas a toda a pressa, sem respeito pelas condições de segurança. Um engenheiro alemão falará mais tarde de «condições criminosas». Aos riscos de incêndio e de inundações junta-se a certeza das irradiações.
Em 1947, a explosão de um depósito de dinamite provoca 70 mortos e 170 feridos. Nada afrouxa a cadência de trabalho. Mesmo os físicos são submetidos ao terror. «Que teria acontecido se não tivéssemos conseguido?», escreverá um deles à família. «Teríamos sido simplesmente fuzilados». O destino do físico soviético Sakharov tem analogias com o de Oppenheimer. Pioneiro da bomba de hidrogénio, menino bonito das autoridades militares durante vários anos, as perseguições de que é hoje objecto relacionam-se com a sua oposição às explosões nucleares atmosféricas. Kruchtchev nunca lhe perdoou.
E em França? Aproveitando as fraquezas da IV República e as mudanças frequentes de governo, a bomba francesa será obra de um pequeno número de tecnocratas, sem licença oficial do parlamento e, sobretudo, na ausência completa de discussões democráticas. Quando explode, em 1960, contentar-se-ão em a… homologar. Sem vergonha, o seu «desenvolvimento» pesa sobre a nação, deixando recordações pungentes. A última, em data, chama-se… Greenpeace.
Em Inglaterra, Churchill, conhecido pelo seu temperamento autoritário, chega ao poder em 1951 e nunca conseguirá compreender como, sob o governo socialista precedente, puderam os engenheiros ingleses gastar um milhão de libras para a bomba, sem que alguma vez o parlamento tivesse ouvido falar dela.
A maldição é que a bomba tem todos os trunfos no seu jogo: Bob Wilson mencionava «o impulso irresistível do poderio tecnológico associado à máquina burocrática» quando procurava compreender por que é que a capitulação da Alemanha nazi não provocara a interrupção dos trabalhos.
Acrescentemos o pavor paranóico e a histeria causados pela bomba russa, que, na opinião dos especialistas, «nunca devia ter causado um tal pânico». Os falcões passam por cima de tudo e aproveitam todas as circunstâncias sem se preocuparem com as responsabilidades políticas.
«Ao longo da história atómica as decisões são sempre apresentadas ao público como inelutáveis. Contudo, nunca as iniciativas pessoais, os temores histéricos e os entusiasmos passageiros terão, neste ponto, ditado o curso da história mundial.», escreveram Pringle e Spiegelman… em Les barons de l’atome, um livro cuja leitura nunca me cansarei de recomendar.
Num autor chamado Peter Sloterdisk encontrei este belo texto, completamente em harmonia com as páginas precedentes: «Perfeita, soberana, indiferente, a bomba atómica é o verdadeiro buda do Ocidente. Imóvel, repousa no seu silo: actualidade pura e pura potencialidade. É a encarnação das energias cósmicas e a participação dos homens nessas energias; é a obra-prima da espécie humana e a exterminadora desta espécie; é o triunfo da racionalidade técnica e a dissolução na paranóia…
Não é mais viciosa do que a realidade, nem mais destruidora do que nós. Ela é, muito justamente, o reflexo do que nós somos e a expressão materializada dos nossos modos de agir.
Mais do que considerações estratégicas, é um profundo exame que temos de fazer em relação à bomba. Ela não requer nem luta nem resignação, mas a experiência de nós próprios. Nós somos ela».
Hubert Reeves
A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?
Lisboa, Ed. Gradiva, 1991
Excertos adaptados
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