A bomba está entre nós V

Setembro 6, 2007 at 10:12 am | In História, comportamentos, ganância, guerra, sociedade, violência | Leave a Comment

A bomba está entre nós IV

A bomba provincializa-se

Quem quer que duvide do poder dos mitos, tem de considerar o espectáculo extraordinário ao qual assistimos aqui: uma imagética mítica que durante anos alimentou o fervor e apaziguou a consciência desta elite da inteligência mundial.

Ilusão… A sucessão de ocorrências ilustrou abundantemente a vaidade desta esperança. A «força» nunca foi «benevolente». A bomba é uma arma como as outras, se bem que infinitamente mais poderosa.

Mais tarde, a linguagem mítica retorna, mas o mito provincializa-se. Truman espera que a América guarde, para sempre, o exclusivismo deste «depósito sagrado» que lhe foi confiado quase por direito divino. Em 1948 pergunta a Oppenheimer: «Quando serão os Russos capazes de fabricar uma bomba atómica?». «Não faço a menor ideia». «Pois eu sei!» «Quando?». «Nunca!», responde Truman, seguro dos seus apoios celestes. Três anos mais tarde um engenho nuclear explodia na União Soviética…

Por igual religiosamente inspirado, o senador Brian McMahon afirma, depois da capitulação, que o bombardeamento do Japão é o maior acontecimento da história do mundo desde o nascimento de Jesus Cristo. E acrescenta: «Os Estados Unidos devem manter-se à cabeça na corrida aos armamentos, porque, se por infelicidade a URSS os apanha, este poderio ilimitado nas mãos das forças do mal só poderá conduzir à destruição total».

Depois da guerra santa contra o nazismo, a guerra santa contra o comunismo. A bomba, decididamente, tem muita sorte, todos os trunfos no seu jogo. Num ritmo infernal, desenvolve-se, aperfeiçoa-se, arranja descendência. Os arsenais enchem-se. E quem faz ouvir a voz da razão?

 

Os murmúrios inaudíveis da razão

A actividade de Niels Bohr, o pai da física quântica, para travar o processo infernal é, sem dúvida, uma das passagens mais emocionantes desta história sombria. «É da máxima urgência», dizia ele antes mesmo de a bomba estar pronta, «pôr Estaline ao corrente. Na ausência deste gesto de confiança e boa vontade, será impossível mais tarde estabelecer um controle internacional da energia nuclear. E teremos direito», predizia ele correctamente, «à escalada do terror».

Durante vários meses Bohr tentou, em vão, avistar-se com os dirigentes da época. Finalmente, Churchill concedeu-lhe uma rápida entrevista… na presença de outro convidado. Escutou distraidamente a petição de Bohr, depois voltou-se para o outro visitante para falar de um assunto completamente diferente. «Posso escrever-lhe?», perguntou Bohr, desesperado. «Sim, na condição de não me falar mais de política». Mais tarde Churchill dirá: «Nunca gostei desse sujeito cabeludo, que queria revelar os nossos segredos aos Russos. Era melhor tê-lo debaixo de olho».

Com Roosevelt, apesar de mais afável, o resultado será o mesmo. A bomba atómica para os Aliados é uma arma de poder, e não uma força benevolente. E isto desde 1943, muito tempo antes da sua concretização.           

A pedido de Leo Szilard, Albert Einstein contactou duas vezes com o governo americano. Quando em 1939 quis interessar Roosevelt pelo projecto atómico, foi recebido favoravelmente. Quando, a seguir à vitória sobre a Alemanha, os dois físicos quiseram opor-se ao prosseguimento do projecto Manhattan, a Casa Branca fez ouvidos moucos.

Um outro físico inglês, o Dr. Blackett, vencedor do prémio Nobel, apresentou ao primeiro-ministro Attlee, sucessor de Churchill, uma memória contra a continuação do armamento nuclear da Inglaterra. Foi acolhido com rudeza e brutalidade. «O autor, um cientista distinto, fala de problemas políticos e militares de que nada sabe». Para assinalar o facto, Blackett foi excluído da comissão de defesa nacional.

Contrariamente ao mundo científico, o mundo político parece ter ficado impermeável ao mito da «força benevolente».

A bomba está entre nós VI

 

Hubert Reeves

A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?

Lisboa, Ed. Gradiva, 1991

Excertos adaptados

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