A bomba está entre nós IV
Setembro 6, 2007 at 10:11 am | In História, comportamentos, ganância, guerra, intolerância, sociedade, violência | Leave a CommentO caminho da bomba está pavimentado de boas intenções
Não conheci Robert Oppenheimer. Segundo a opinião geral, era um ser de excepção. Além do seu perfeito domínio da física, possuía uma vasta cultura literária e filosófica. Sentia-se tão à vontade no domínio das mitologias hindus como no da literatura francesa medieval. Antes da guerra não dava muita importância aos acontecimentos da política internacional.
Mas ninguém, sobretudo um judeu, pode desinteressar-se da política no início dos anos quarenta. Em todas as frentes Hitler triunfa. A sua ambição é sem limites, os exércitos alemães invadem a Europa, subjugando populações inteiras. Os campos de extermínio multiplicam-se. A nova ordem que se vai impondo ameaça a própria civilização, é o retorno à barbárie e, para os judeus, a morte a curto prazo.
Por acréscimo, certos rumores deixam entender que os nazis se interessam pela bomba atómica… Sabemos agora que os Alemães tentaram, efectivamente, desenvolver o armamento nuclear. Mas não foram muito longe. Para Hitler, o cientista era mais útil na frente de batalha do que no laboratório. Felizmente! Uma bomba atómica alemã teria mudado o curso da história.
Nessa época opera-se uma aliança simultaneamente espantosa e significativa. O exército americano confia o projecto nuclear ao general Groves, um militar de carreira, cabeçudo, da extrema-direita, alérgico aos intelectuais e liberais.
Para seu colaborador científico principal chama Oppenheimer. Estas duas personagens, na aparência, o mais incompatíveis possível, vão trabalhar em estreita colaboração durante anos.
As vitórias alemãs, os campos de extermínio de judeus, estimulam e dinamizam a equipa de Los Alamos. No plano moral, a situação é límpida: não é hora para hesitações e escrúpulos. É preciso fabricar a bomba. E depressa. Creio que, se então tivesse a idade necessária e me tivessem convidado, ter-me-ia lançado com entusiasmo nesta aventura, com o sentimento exaltante de participar na salvação da civilização.
Em 8 de Maio de 1945 os exércitos alemães capitulam. É a vitória das forças aliadas na Europa. No Pacífico, os Japoneses resistem ainda, mas, com toda a evidência, a guerra está perdida também para eles. A bomba atómica não está ainda pronta.
Como se reage em Los Alamos? Mais tarde Bob Wilson dirá: «Nesse dia devia ter devolvido o meu distintivo, fechado o laboratório para nunca mais lá pôr os pés. Por que não o fiz? Nunca consegui compreendê-lo. É, em toda a minha vida, o que mais lastimo».
A hipótese de uma interrupção dos trabalhos é timidamente evocada por numerosos cientistas, mas sobretudo por descargo de consciência. Ninguém, em verdade, acredita nisso. O clima psicológico não é propício.
Sem dúvida, os argumentos a favor da bomba existem ainda, mas de uma forma singularmente enfraquecida. Já não se trata de salvar a civilização, mas apenas de poupar as despesas da invasão do território japonês, poupando, assim, alguns milhões de soldados e civis. Mais vale sacrificar uma centena de milhar de japoneses…
É bom em termos contabilísticos, mas de uma contabilidade a curto prazo, porque, a longo prazo, seria necessário ter em conta as centenas de milhões de mortes que uma futura guerra nuclear poderia ocasionar. «Cá estou, cá fico», diz a bomba.
Isto conduz-nos ao ponto crucial da nossa discussão: será a bomba inevitável? Suponhamos que, se se tivesse nesse momento decidido fechar a loja, queimar os documentos, destruir as instalações, porque os Russos já se interessavam pela bomba, cedo ou tarde os Americanos seriam forçados a retomar os trabalhos.
Como um paquete navegando a toda a velocidade, o projecto, dirá mais tarde Oppenheimer, era irresistivelmente empurrado pelo seu próprio impulso. «Quando se nos depara a possibilidade de cometer a proeza técnica, baixamos a cabeça, e atiramo-nos para a frente, sem perguntar o que nos convirá fazer, uma vez concluída a tarefa. Assim aconteceu com a bomba atómica». Senhora de todos os argumentos, a bomba atómica não sofreu nunca qualquer atraso.
Os trabalhos prosseguiram sem interrupção e a bomba de ensaio explodiu no Novo México no Verão de 1945.
Desde esse momento pôs-se a questão do futuro da bomba. Será preciso usá-la? Em que condições? Uns propõem que se convidem os generais inimigos para um novo ensaio no mesmo local, com o fito de os impressionar. Outros pensam que é necessário fazer explodir a bomba sobre território japonês, mas numa região desabitada.
«Ora bolas para os escrúpulos», dizem os falcões de então, «devastemos com firmeza cidades não bombardeadas até aqui, para melhor podermos avaliar a extensão das destruições». É este ponto de vista que triunfa. Depois de Hiroxima e Nagasáqui, os Japoneses pedem a paz.
Como terá Hans Bethe vivido estes acontecimentos? «À partida estávamos muito inquietos. O engenho funcionaria? Quando recebemos as notícias do êxito, ficámos, primeiro, descansados, para depois mergulharmos no horror. Que foi que fizemos? Que foi que fizemos?» Desde esse instante data a sua decisão, nunca posta em dúvida, de se opor ao prosseguimento dos ensaios nucleares.
«Em Los Alamos não reflectíamos», dirá ele mais tarde, «o trabalho absorvia-nos inteiramente. Era preciso terminá-lo. Penso que, uma vez iniciado, o movimento continuou à custa do seu próprio embalo».
Philip Morrison procedeu à última inspecção da bomba na ilha de Tinian, justamente antes da partida para Hiroxima. Na universidade falava livremente, retomando o argumento oficial dos milhões de vítimas que teria custado o desembarque no Japão. Mas sentíamo-lo preocupado, muito mais do que desejava mostrar.
Quanto a Bob Wilson, a sua mulher conta que no dia de Hiroxima regressou a casa aos vómitos. «E ainda vomito todas as vezes que penso nisso», acrescenta ele.
E ilusões: as duas faces de Prometeu
Sobre o estado de alma dos cientistas de Los Alamos, Oppenheimer dirá mais tarde, com grande lucidez – e aborrecimento de muitos –, que os físicos conheceram o pecado.
Libertar a energia das estrelas é, como fez Prometeu, arrancar o fogo do céu. É a Natureza controlada, domesticada, dominada, como nunca antes na história dos homens. O físico torna-se demiurgo.
É fácil imaginar a exaltação no momento da primeira explosão. Oppenheimer conta como, nesse mesmo instante, lhe vêm à memória as palavras de Krishna no Mahabharata (um dos livros sagrados da tradição hindu). São versos de ressonância profética:
Os raios de um milhão de sóis
Resplandecendo num só golpe no céu,
Assim será o esplendor do Todo-Poderoso.
Tornei-me a morte,
O destruidor do universo.
No seu livro Disturbing the Universe, o físico Freeman Dyson fala, com justeza, do «pacto faustiano». Tal como Fausto aceita o pacto de Mefistófeles, os físicos aliam-se ao exército para ascenderem a um nível superior da ciência e do poderio. Mas, enquanto Fausto suporta sozinho as consequências do seu gesto, o peso das experiências de Los Alamos cai sobre a Humanidade inteira.
O mito de Prometeu tem duas faces. A primeira remete-nos para Fausto: a embriaguez do saber e do poder. A segunda é messiânica: Prometeu, benfeitor da Humanidade.
O mito da «força benevolente» é uma imagem intemporal, um desses arquétipos profundamente gravados na psique humana e que vem regularmente ao de cima na literatura mundial. É Gilgamesh entre os Assírios, Sansão para os Judeus, Hércules na Grécia antiga e, mais próximo de nós, o Super-Homem, Tarzan ou Zorro. O poder que vem em socorro das boas causas, da viúva e do órfão.
No mesmo espírito, Oppenheimer evocará outra passagem do Mahabharata, um acontecimento da vida de Xiva, o criador dos mundos, mas também o destruidor universal, quando os tempos chegam ao fim. Xiva tenta trazer à razão um reizinho despótico e quezilento. Como os seus conselhos de nada servem para lhe instilar um receio salutar, Xiva metamorfoseia-se e enverga os terríveis trajes de destruidor dos mundos. «Cada um de nós em Los Alamos foi influenciado, nesse momento ou noutro qualquer, por uma imagem análoga», acrescenta Oppenheimer.
«Esperamos que o poder quase ilimitado que vai nascer nos nossos laboratórios sirva para paralisar as más intenções e para impor aos humanos uma conduta razoável. Oferecemos à Humanidade uma arma que, nas mãos das Nações Unidas, se tornará uma garantia de paz». Estas palavras, segundo Oppenheimer, sustentavam os investigadores nas horas de dúvidas e escrúpulos. «Quem ama castiga», diz o provérbio, mas é preciso um chicote.
Ainda na mesma via, o financeiro americano Bernard Baruch apresentará, alguns anos mais tarde, um projecto de acordo soviético-americano no qual se pede que as Nações Unidas criem um arsenal atómico para castigar toda a nação que, tendo reconhecido a nova agência, ousasse infringir as suas regras. O projecto foi rejeitado por unanimidade…
Hubert Reeves
A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?
Lisboa, Ed. Gradiva, 1991
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