A bomba está entre nós III

Setembro 6, 2007 at 10:10 am | In História, bomba atómica, ciência, comportamentos, guerra, sociedade, tecnologia, violência | Leave a Comment

A bomba está entre nós II 

 

Discípulos exemplares…

 

 

Em 1935, um rumor; em 1986, uma realidade terrível. Os historiadores que, após um eventual cataclismo nuclear, desejarem narrar as suas etapas preliminares, citarão Los Alamos como um dos lugares altos dessa preparação. Na logística do grande golpe contra a Humanidade, este laboratório terá assumido um papel-chave.

Na película The Day after Trinity são entrevistados vários participantes, tanto sobre o seu papel como sobre os seus estados de alma ao longo de todos estes anos. Ao mesmo tempo emocionante e instrutivo, o filme propõe abundante matéria à nossa reflexão.

O Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, divulgou a imagem do cientista atómico, paranóico genial, obcecado por engenhos cada vez mais destruidores. Se esta representação não é sempre destituída de fundamento (alguns quiseram ver nela o retrato de Edward Teller, outro refugiado húngaro, grandemente responsável pela bomba H), decerto não se aplica à maioria dos artesãos do «projecto Manhattan» (nome secreto da operação atómica de Los Alamos).

Estudante na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, no fim dos anos cinquenta, conheci, pessoalmente, vários dos responsáveis deste projecto. Todos eram ardentes pacifistas, activos oponentes ao maccartismo, esse anticomunismo primário que, na época, se comprazia em exercer sevícias a torto e a direito.

Hans Bethe dirigiu a secção teórica do projecto Manhattan de 1943 a 1946. De origem judia alemã, fugira da Europa alguns anos antes. «É uma das mais belas ofertas da Alemanha nazi aos Estados Unidos», dizia-se dele. Já antes da guerra o classificavam entre os melhores físicos nucleares.

Muito jovem, tinha resolvido um problema secular: o da fonte de energia do Sol. Em 1938, com alguns colaboradores, demonstrou que o coração das estrelas era palco de reacções nucleares, cuja energia era mais do que suficiente para explicar a luminosidade das estrelas. Este trabalho valeu-lhe o prémio Nobel em 1967.

Estou ainda a vê-lo, alto, digno e sereno, percorrendo a largas passadas os corredores do Rockfeller Hall, edifício do departamento de física da universidade, rodeado por um cenáculo de jovens investigadores.

Nas conferências semanais daquele departamento sentava-se no fundo da sala e prosseguia os seus trabalhos, aparentando não dar nenhuma atenção às discussões que se desencadeavam entre os assistentes. Todavia, quando a situação se obscurecia, ouvíamo-lo tossir gravemente. Seguia-se um longo silêncio; depois, em algumas frases, dissipavam-se as brumas, tudo se tornava luminoso. Creio que tínhamos por ele uma verdadeira veneração.

A cada um dos estudantes do laboratório dava uma atenção amigável e exigente. Com regularidade, vinha até nós e, fingindo querer saber apenas as novidades, acabava por nos submeter a um interrogatório cerrado sobre o andamento dos nossos trabalhos. A sua passagem criava muita apreensão: «Fulano está com o mestre, vi-os pela janela. Cheira-me que as coisas não vão lá muito bem». Mas apreciávamos muito os seus conselhos, o seu olhar sobre os nossos trabalhos. Deixávamo-nos levar pelo seu vigor e rigor e aceitávamos, de boa mente, as suas normas de excelência.

Consciente da responsabilidade do cientista, consagrou, depois de Los Alamos, uma parte importante da sua actividade a opor-se à escalada nuclear, argumentando que só o diálogo entre as partes adversas, só a união ao nível político e humano, podiam afastar a ameaça de guerra. Membro do conselho científico do presidente dos Estados Unidos, a ele ficámos a dever a interdição dos ensaios nucleares na atmosfera, decidida em 1963.

Nunca cheguei a saber exactamente qual o papel que Robert Wilson desempenhou em Los Alamos, mas sem dúvida que se ocupou das experiências. Durante os meus estudos em Cornell, partilhava ele com Hans Bethe a direcção do Newman Nuclear Laboratory. Tanto quanto Bethe se nos impunha pela gravidade da sua atitude, assim Wilson era directo e jovial. Durante as suas aulas não perdia ocasião de implicar com os físicos teóricos, afogados em equações. Com ele tudo era simples, claro e eficaz.

Wilson é o homem dos aceleradores de partículas. Depois de ter construído o betatrão de Cornell, dirigiu no Fermi Laboratory, de Chicago, um dos maiores aceleradores actuais, comparável ao CERN, de Genebra.

Apaixonado pela arquitectura, tinha particular afeição pelas construções do período gótico, de que falava muitas vezes, com competência e calor. Para ele os aceleradores gigantes são, de certo modo, as catedrais dos nossos dias. Wilson tem pelo seu trabalho o fervor de um artesão medieval.

  Quero apresentar-vos agora Philip Morrison, sem dúvida o meu preferido. Impossível perder um curso, uma conferência pública de Morrison. Era o grande espectáculo. Ouço ainda o seu passo claudicante para o estrado, revejo os seus gestos um pouco patéticos para se instalar e o seu belo sorriso inteligente, um nadinha malicioso.

A exposição arrancava a todo o vapor, as ideias encadeavam-se numa torrente inspirada, pontuada de truculência e de entusiasmo irresistíveis. A mistura, sabiamente doseada, de rigor lógico, de arrebatamentos líricos e de piadas insolentes contra as «instituições», mergulhava-nos num estado de êxtase, de que se emergia a custo. Queríamos sempre mais… Um dos seus números favoritos começava por uma iniciação às maravilhas das técnicas de telecomunicações, para terminar por uma sátira contundente à inépcia das mensagens veiculadas pelas ondas.

Posto na lista negra das autoridades americanas por causa das suas simpatias de esquerda, foi-lhe cortado, durante os anos cinquenta, todo o acesso aos documentos secretos da defesa nacional. Nessa época, o seu telefone estava ligado a um posto de escuta e o seu correio era sistematicamente aberto.

Facecioso, criou um método de detecção das explosões nucleares (pelo seu reflexo sobre a face escura da Lua), de que enviou uma memória a Washington. Aterrorizados, os funcionários lembram-lhe as interdições de que é objecto. «Se não o querem, a quem me sugerem que o envie?».

Havia ainda Richard Feynman, preocupado com a filosofia e os problemas religiosos. Almoçava muitas vezes com os estudantes. Sentíamo-nos fascinados por esta personagem genial, que fazia física, como jogava bongo.

 

A bomba está entre nós IV continuação

Hubert Reeves

A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?

Lisboa, Ed. Gradiva, 1991

Excertos adaptados

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