A bomba está entre nós II
Setembro 6, 2007 at 10:07 am | In História, bomba atómica, ciência, comportamentos, ganância, guerra, sociedade, tecnologia | Leave a Comment
Mas voltemos à génese do armamento nuclear. Os primeiros rumores sobre a possibilidade de fabricar uma super-bomba, dita atómica, começam a circular no mundo científico alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial.
É o despontar da era nuclear. Pressentem-se então as propriedades explosivas do urânio, cujo átomo, radioactivo, se quebra facilmente, com emissão de energia. Um bloco de mineral de urânio liberta continuamente calor. Para o sentir basta tocar-lhe com a mão. Em cada instante, no interior do bloco, dá-se a fissão de milhões de núcleos.
Pode-se acelerar artificialmente esta fissão submetendo os átomos a um fluxo de neutrões. Ao absorver um neutrão, o átomo de urânio torna-se muito mais vulnerável à fissão e cinde-se rapidamente, emitindo numerosos neutrões. Daí a possibilidade de uma reacção em cadeia.
Um núcleo de urânio absorve um neutrão, cinde-se, emite neutrões, imediatamente absorvidos pelos átomos vizinhos, que se cindem por sua vez, etc.
As energias libertadas por cada uma destas fissões somam-se e podem atingir proporções gigantescas. Donde a ideia de uma bomba. Um quilo de urânio liberta, assim, mais calor do que mil toneladas de dinamite. Quanto basta para devastar uma pequena cidade. Uma tonelada de urânio fará desaparecer do mapa a maior das cidades do planeta.
Mas naquela época ninguém sabe se o projecto é realizável. As dificuldades técnicas parecem inultrapassáveis; a maior parte dos cientistas mantém-se céptica. Um projecto utópico, a remeter para as prateleiras do esquecimento, juntamente com o «movimento perpétuo» e a «máquina de viajar no tempo».
«Um conto de dormir em pé», dizia Ernest Rutherford, um dos maiores físicos do nosso século.
Numa banheira de um quarto de hotel
No seu livro Os Grandes Momentos da Humanidade, Stefan Zweig descreve certos acontecimentos históricos (os gansos do Capitólio, a escrita do Messias de Händel, etc.) que, mau-grado a sua curta duração e, por vezes, a sua aparência anódina, influenciaram profundamente os destinos da Humanidade.
Gostaria de acrescentar um acontecimento à colecção de Zweig. Estamos em Londres em 1935. Um cientista judeu húngaro, recém-chegado de Budapeste, aluga um quarto num hotel e transforma imediatamente a casa de banho em laboratório. Na água da banheira mergulha pequenas fontes radioactivas, subtraídas à universidade onde ensinava e transportadas em segredo na bagagem. Chama-se Leo Szilard e encontra-se submetido a uma viva agitação.
Acredita firmemente na possibilidade de libertar a energia dos átomos e espera executar rapidamente as manipulações requeridas para o conseguir.
Não o impulsiona somente o entusiasmo por um projecto fantástico; sobre as implicações do eventual êxito da sua tarefa há um olhar lúcido. Szilard sabe da ameaça que pesaria sobre o destino da Humanidade caso conseguisse fabricar uma bomba atómica. «A Humanidade corre para a sua perda», repetiria ele mais tarde, à medida que as dificuldades se aplanavam.
Mas ao mesmo tempo sente-se aterrorizado pela amplitude que o movimento nazi vem assumindo desde há alguns anos. Por causa da subida do anti-semitismo abandonara a sua cadeira na Universidade de Budapeste e fugira do continente. São-lhe evidentes as intenções guerreiras de Hitler, a barbárie que ameaça a Europa.
Ei-lo, refugiado político sem laboratório, inclinado sobre a sua banheira de hotel, obcecado pela ideia de que é preciso, por qualquer preço, desenvolver a bomba e ganhar a corrida contra os físicos alemães ao serviço do nazismo.
Em 1935 Leo Szilard suporta sozinho a carga de angústia que emana da bomba ainda nos limbos. A maior parte dos seus colegas não acredita nela.
Mas a bomba não tardará a impor-se. A pouco e pouco, acabará por fascinar toda uma geração de físicos e engenheiros, a quem, como a Szilard, inspirará alguns sentimentos contraditórios: a excitação ante as forças a libertar, a consciência do risco mortal que ela importa, mas também a necessidade imperiosa, em face da conjuntura política, de acelerar, por todos os meios, o seu nascimento.
Hubert Reeves
A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?
Lisboa, Ed. Gradiva, 1991
Excertos adaptados
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