A bomba está entre nós – Hubert Reeves
Setembro 6, 2007 at 9:37 am | In História, bomba atómica, comportamentos, ganância, guerra, intolerância, sociedade, tecnologia, violência | Leave a CommentHubert Reeves
A hora do deslumbramento. Terá o universo um sentido?
Lisboa, Ed. Gradiva, 1991
Excertos adaptados
Da minha janela vejo o pôr-do-sol sobre a cidade. As vidraças reflectem-lhe a luz dourada sobre as ruas já ensombradas. Entre as bancadas do mercado, onde se alinham frutos e legumes, as pessoas discutem, compram e abalam com os cestos bem cheios.
Ao observar esta vida calma e pacífica, como pensar na ameaça que pesa sobre ela? Armazenadas nos silos nucleares, 30 000 bombas atómicas estão prontas a saltar em poucos minutos. Uma única bastaria para aniquilar uma cidade inteira, deixando de ponta a ponta uma imensa cratera vítrea como as que se vêem na Lua.
Mil milhões de mortos, mil milhões de feridos graves, tal é o cálculo das vítimas imediatas de um conflito nuclear generalizado, mas os efeitos a longo prazo seriam ainda mais aterradores, porque os sobreviventes lamentariam não terem sucumbido prontamente. Segundo as melhores estimativas, milhões de toneladas de poeiras e fuligem, dispersas na atmosfera, mergulhariam grande parte da superfície terrestre numa noite de vários meses e o calor solar deixaria de atingir o solo. A temperatura desceria por toda a parte e manter-se-ia algumas dezenas de graus abaixo de zero, provocando, assim, o inverno nuclear…
Depois disto, tempestades de grande violência disseminariam nos dois hemisférios substâncias tóxicas cujo teor radioactivo neutralizaria as defesas imunológicas de pessoas e animais. A agricultura, os cuidados médicos, os transportes públicos, seriam reduzidos a nada. A fome, o frio, as epidemias, poderiam, segundo alguns, provocar a extinção do género humano. (Estes cálculos e previsões têm sido contestados. O grau de incerteza é grande, mas não exclui o extermínio da nossa espécie).
Como chegámos a isto? Por que aceitámos este cavalo de Tróia dentro das nossas muralhas? Por que espécie de perversidade fomos levados a construir, nós próprios, os instrumentos da nossa destruição? Porquê, em vez de nos livrarmos delas, damos em cada ano, a essas armas, uma potência maior, uma precisão mais mortífera?
Este primeiro capítulo é uma reflexão sobre um tema entristecedor: a Humanidade faz tudo o que pode (e ainda mais) para chegar o mais depressa possível à sua autodestruição.
O advento da bomba é melhor contado no estilo das grandes epopeias mitológicas do que no tom frio e impessoal da história contemporânea; a linguagem épica revela de modo mais eficaz a verdadeira dimensão dos trunfos em jogo.
Longe de não ser mais do que uma crendice, cuja falsidade se demonstrou, o mito, tradicionalmente, é uma maneira de transmitir sabedoria e arte de viver. Não se trata de saber se é verdadeiro ou falso, mas sim de medir a sua eficácia como técnica de ensino.
O mito de um ser do além que incarna e irrompe no nosso mundo surge com frequência nos escritos tradicionais. Precursores, profetas, grandes sacerdotes e sacerdotisas anunciam e preparam a sua vinda.
De todas as divindades, a bomba é, sem dúvida, a mais despótica, a mais cruelmente exigente. Como vestais romanas, os seus discípulos consagram-se inteiramente ao seu serviço. Sentido do dever, competência, eficácia, honestidade científica, todas as qualidades que se exigem aos melhores são indispensáveis para levar a bom termo os trabalhos que o seu nascimento implica.
A bomba não tolerará nenhuma lentidão, nenhuma fraqueza, nenhuma infidelidade, e os que quiserem deixá-la arrepender-se-ão. Sem demora serão substituídos por outros adoradores mais zelosos ainda, os quais, em grande número, esperam com impaciência a ocasião de a servir.
Em menos de dez anos a bomba atómica passa do estado de especulação pura ao de realidade aterradora, gerada por uma das mais prodigiosas concentrações de matéria cinzenta da história humana. Em 1942, em Los Alamos, vila perdida no deserto do Novo México, reúnem-se os melhores cientistas do planeta: físicos, matemáticos, químicos.
O exército americano instala lá um super-laboratório, onde todos os meios são postos à disposição dos investigadores. O ambiente é de alta tensão, trabalha-se noite e dia, sem quaisquer férias. O parto é longo e difícil. A bomba manifesta-se pela primeira vez em Julho de 1945, em Alamogordo, também no Novo México. Pouco depois revela a sua verdadeira face, com o aniquilamento de duas cidades japonesas: Hiroxima e Nagasáqui. Em alguns segundos dezenas de milhares de pessoas passam, literalmente, ao estado gasoso. No total, mais de 150 000 vítimas.
A bomba ganha em potência. No atol de Bikini, nas neves siberianas de Nova Zembla, atingirá o equivalente a dezenas de milhões de toneladas de dinamite. E ela prolifera: mais de 30 000, segundo as últimas notícias, encontram-se disseminadas nos arsenais do planeta.
Instaladas sobre engenhos balísticas de assustadora precisão, várias de entre elas são-nos destinadas e têm o doce nome de Paris, outras chamam-se Nova Iorque, Moscovo, Pequim. Para os técnicos que todos os dias as mantêm e acariciam, Paris é, antes do mais, o nome de um dos seus belos engenhos.
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